terça-feira, 25 de junho de 2013

DESAGUAR DAS LÁGRIMAS

Escapou-se-me o olhar enquanto caminhava em semi-passos no decair do dia. O ar quente murmurava-me a tua despedida e apertei o teu último abraço que me gelava o peito. Os meus passos lentos e diminutos martirizaram os prantos que calcorrearam as estradas por onde nos perdemos e fizeram-me escrever versos em prosa sobre linhas pintadas de azul. Todas as despedidas são lâminas que desferem facadas e desaguam em lágrimas siamesas que recortam e escoam o licor rubro do sangue. Desconheço os nomes dos deuses e os apelos às virtudes do permanente se tudo é intemporal em cada momento, se tudo depende de um determinado cerne-recorte e de um renascer florido de almas que se fundem. Mas não desconheço a dor nem a existência de cinzas-nuas no aceno ao barco que se aparta do cais. Deixo que o meu olhar voe e se despregue de mim e se incorpore no teu adeus, vou sacudir as horas e virar os dias do avesso nesta despedida de abraços.

© francisco valverde arsénio
25 de Junho de 2013 in IN-VERSO PRESENTE (a publicar)
(ao abrigo dos direitos de autor)

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