sábado, 22 de junho de 2013

BONECA DE PORCELANA

Ès boneca de porcelana. Serás de Sévres, mas não me serves.Porque se não te pode tocar:Pairas no ar, beleza mundana.
Como boneca que és, tens de estar engalanada, guardada e resguardada até aos pés… e
Posta, muito composta… numa prateleira com godés.
De lá só sais, em dias de festa… em dias de feira, soltando teus ais. Se te toco partes, se te falo suavemente, ficas contente, mas sempre com vergonhas de freira.Arzinho indiferente. Teus olhos brilham –como reflexos de lareira-É só o efeito das artes de tua alma matreira-Amar não sabes e também não podes. Não que o não sintas. Só umas odes, porque temes que tal te quebre as cintas, faz riscos e dor. Estraga o brilho incolor, de tuas tintas. Como boneca que és, és perfeita da cabeça aos pés, cintura fina, anca bem desenhada, és boneca. Não menina e estás sempre alinhada, pronta para passear-asseada, com bom ar-, na montra, na esplanada.
Que diferença, sem ofensa, para a minha boneca de trapos! Essa dormia comigo e punha meu corpo em farrapos. Não discutia, amava e gostava de ficar, sem se lavar, para melhor cheirar o amor que por mim sentia. Só me dava alegria e tanto de mim gostava, que nunca me desmentia e comigo ia, para todo o lado. Viver assim era o melhor fado, que ter podia.
Querida boneca de trapos, feita de coisas usadas, amassada e perfumada com cheiros do amor-perfeito de muitas vidas passadas, suadas sofridas e vencidas, descansadas em meu peito. Por fim sorria, como só ela podia sorrir para mim, sorria com calma e com o espelho da alma, como só ela sabia.
Na ternura do amor, então me dizia aquilo que pensava, sempre a horas certas e com tanto calor se fazia entender, que eu estremecia e tudo compreendia-ficava em paz o meu ser-Rendia-me, meigamente á sua razão. Com um querer de coração tudo lhe dava, tudo lhe ensinava e ela a mim o mesmo me fazia e muito me amava, sem fantasia, sonhava agarrada a mim, em gestos de uma ternura sem fim, que nunca mais se acabava.
Sempre bela, sempre reconstruída com imaginação, suave como um torrão, etérea, linda flor aérea, fruto de um sonho de Verão.
Um triste dia teve de ir, teve de partir para se não desfazer em dor, teve de deixar este grande amor, teve acudir a coisas que não podia abandonar e que eu desde o principio sabia, não podermos ignorar.Desde esse dia, já longe, não há momento em que a esqueça, momento em que não me apareça,não a veja, quente, em seus lábios de cereja, inteligente, meiga e tão bonita nos seus trajes.
Não existem horas em que não me lembre, que, com essa boneca, tudo era fácil, possível e desejado, que o nosso amor era a história mais bela que poderia ter sonhado e nunca teria fim.

Ao pé dela,és um caco, ainda que muito bela.
De uma pobreza maldita-
-de Sévres a bonequita-!
Nunca te ponhas ao lado,do objecto mais amado,
De uma bondade infinita.
Autor Antonio António Sales

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